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Queimadas Apagando o mal pela raiz
Reportagem Estado Ecológico
Jornal Estado de Minas de 24/09/1999
João M. Fernandes Engenheiro
O fogo afasta toda e qualquer possibilidade de regeneração da floresta, destrói especialmente rebentos novos e plantas nascidas durante a estação precedente e tem influência nítida sobre as árvores, que vão desaparecendo pouco a pouco.
Provoca inevitavelmente transformações profundas na paisagem vegetal em regiões submetidas a fogos correntes. Sobrevivem apenas algumas árvores esparsas e retorcidas, moitas definhadas e gramíneas grosseiras, cenário resultante das altas temperaturas registradas durante as queimadas.
A elevação da temperatura é a razão principal dessa modificação. É freqüente o registro de temperaturas de 100 a 250 ºC em incêndios florestais, podendo atingir às vezes de 700 a 850 ºC, dependendo das condições locais, especialmente da ação dos ventos. Todo e qualquer vegetal que não esteja protegido por adaptações particulares estará condenado a morrer em curto prazo. Mesmo as árvores de maior porte são danificadas, o que explica seu aspecto mirrado e retorcido.
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| João Marques: "As queimadas são o inverso da fotossíntese". |
Biodiversidade empobrecida
No conjunto, o ecossistema inteiro se empobrece com a ação do fogo, principalmente em número de espécies da flora, fato que ainda é acentuado com o pastoreio e a criação extensiva de gado bovino, que exerce inevitável seleção sobre as espécies que consomem.
Tais transformações fatalmente influem na composição da fauna. No caso dos mamíferos, as espécies herbívoras são favorecidas, em detrimento daquelas que se alimentam de folhagens e vegetação silvestre. Daí a ocorrência de desequilíbrio entre algumas espécies e o desaparecimento de outras onde as queimadas são periódicas.
A queimada afeta também a matéria orgânica, fundamental à vida do solo, pois atua em sua estrutura granulando as partículas, tornando-o poroso, arejado e permeável. Bem diferente do solo rico em matéria orgânica que é solto, úmido, tem cheiro agradável e permite que a água nele se infiltre rapidamente.
Quando o fogo se alastra agressivamente na mata, tanto as raízes das árvores quanto as sementes enterradas no solo ficam queimadas. A microfauna e a microflora são destruídas e a terra fica esterilizada. Mesmo quando não tem uma ação tão profunda, o fogo destrói a camada superficial de vegetais mortos, que deveria gerar húmus no futuro. Desprovido de sua cobertura vegetal protetora, o solo fica sujeito à erosão e ao carreamento de minerais pelo escoamento de água.
Do ponto de vista ecológico e no plano da produtividade primária vegetal, o fogo constitui um fenômeno absurdo e inaceitável. Destrói uma quantidade considerável de seres vivos e materiais orgânicos, provocando uma perda considerável de energia para o conjunto do habitat. Com isso, a natureza produz substâncias vegetais que são destruídas antes mesmo de se integrar completamente ao ecossistema,
Fotossíntese ao inverso
E os prejuízos não param por aí. A perda de água causada pelas queimadas se acentua sob o efeito das perniciosas práticas de pastoreio excessivo, da destruição contínua da vegetação, fatores responsáveis pela erosão acelerada. Isso provoca profundas modificações no clima, desencadeando fatos que podem culminar na desertificação progressiva de regiões inteiras.
O fogo constitui uma calamidade tal que autores como Aubréville lhe atribuem a transformação de todo um continente: "Espessas florestas estão diminuindo e desaparecendo como manchas que se evaporam. E a pele nua do solo surge quando o ligeiro véu verdejante da savana queima, deixando na atmosfera apenas uma bruma cinza de poeira, em conseqüência da ação perseverante de duas calamidades: o desbravador e o fogo", dizia ele em 1949.
O fogo, como se sabe, é o fenômeno físico resultante da rápida combinação do oxigênio com uma substância carburante qualquer, com produção de calor, luz e geralmente chama. Essa combinação é o inverso da fotossíntese, consistindo num processo de decomposição que libera, sob a forma de calor, a energia armazenada.
Soluções inteligentes
Na agropecuária, o tradicional e nocivo recurso das queimadas pode ser substituído por mecanismos menos impactantes, com resultados mais eficientes. Nas pastagens, por exemplo, para eliminar parasitas como carrapatos, basta vedar o acesso do gado à área por um período de 160 dias e fazer o tratamento sanitário do rebanho.
Na hora de preparar o terreno para o plantio, é importante fazer um bom planejamento, minimizando a área a ser desmatada, preservando as matas ciliares, situadas à margem de rios, córregos e nascentes. Na colheita, ao invés de recorrer à queima para incorporar os resíduos vegetais ao solo, pode-se usar máquinas agrícolas ou equipamentos de tração animal.
Através de soluções mais ecológicas, portanto, pode-se apagar o fogo pela raiz, evitando que ele se transforme em grandes incêndios que invadem reservas, parques e áreas de preservação e via de regra destróem um dos mais ricos tesouros do homem, que é a biodiversidade.
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