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Emoção de engenheiro na Ferrovia do Aço
Reportagem Estado Ecológico
Jornal Estado de Minas de 23/12/1999
Hiram Firmino
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O "Aleijão", antes e depois, que emocionou os engenheiros: ao invés de máquinas e investimentos altos, o uso inteligente e parceiro da própria natureza resolveu a questão. |
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Só a natureza mesmo, via questão ambiental, para desfazer o mito de que todo engenheiro é frio, racional e calculista. E ela se fez presente, de uma só vez, para dois segmentos importantes da engenharia nacional: os engenheiros, técnicos e diretores do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER-MG) - órgão que figurou vários anos seguidos na "Lista Suja" dos ambientalistas mineiros como um dos 10 maiores degradadores da natureza no Estado - e da MRS Logística, uma das empresas integrantes da privatização da antiga Rede Ferroviária Federal e que, por isso mesmo, herdou um passivo ambiental medonho, acumulado ao longo de décadas às margens das estradas-de-ferro do Brasil afora.
Pois é. O congraçamento dessa mudança de mentalidade aconteceu mês passado, no quilômetro 323 da Ferrovia do Aço, entre os municípios de Ouro Preto e Congonhas, em pleno coração geográfico do quadrilátero ferrífero de Minas. Para ser mais simbólico, ao lado da velha Jazida do Vigia, onde, na década de 50, a Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), quarta maior exportadora de minério do mundo, construiu indiretamente, e em convênio com a antiga Rede, a primeira barragem ecológica na história ambiental do Estado para conter os rejeitos de minério e não poluir os cursos d'água da região.
Foi nesse local, onde a MRS testou com eficiência duas técnicas ecológicas de contenção de encostas - manta vegetal com hidrossemeadura e rip-rap vegetativo -, que o engenheiro João Marques Fernandes, diretor da empresa Nascentes Fernandes, com quase 20 anos de atuação em empreendimentos rodoviários, ferroviários, industriais, minerários e de obras civis, resolveu fazer uma vivência prática de recuperação ambiental com quase 100 engenheiros do DER.
A aula prática, que os fez subir e descer morros sob um céu que ameaça desabar a qualquer momento, fez parte do encerramento do curso de "Capacitação Técnica na Avaliação Ambiental de Empreendimentos Rodoviários". Patrocinado pelo governo mineiro, o curso envolveu praticamente todos os engenheiros de obras do DER, tanto da capital como aqueles lotados em atividades no interior do Estado, a maioria ainda distante da discussão ambiental.
De bem com a natureza
Até aí, nada de mais. Os engenheiros - e a imprensa convidada - apenas estavam diante de uma "terraplenagem de regularização, drenagem superficial e contenção em muro de arrimo", no sopé de um dos milhares de taludes da Ferrovia do Aço, também conhecidos por "aleijões" da natureza.
Estamos falando daqueles cortes vermelhos de terreno que governos e construtoras apressados - ou ávidos para "economizar" o término das obras - costumam deixar abandonados e sem qualquer cobertura vegetal ao longo de nossas estradas rodoviárias e ferroviárias. Por isso mesmo, com as chuvas, viram focos permanentes de erosão e carreamento de sedimentos, soterrando e matando córregos e nascentes vales abaixo.
A diferença que emocionou os engenheiros no trecho recuperado foi a ausência de um projeto de engenharia tradicional, caro e antiecológico. Ao invés de uma grande obra comum de terraplenagem e uso de máquinas pesadas, que iria causa, pelas condições locais, grande movimentação e transtorno de terra - bota-fora, retaludamento, etc. -, os engenheiros viram uma solução até 30% mais simples e barata aos cofres da MRS: o uso inteligente da própria força da natureza, incluindo até mesmo trabalho manual.
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| Eugênio Botinha: "Meio ambiente é sentimento" |
Como apontou o engenheiro civil, de minas e metalurgia, José Jaime Rodrigues Branco, professor catedrático e pioneiro na aplicação da geologia à engenharia no Brasil, a natureza sempre foi a maior escola de engenharia, embora só agora redescoberta, via apelo ecológico do planeta. No alto dos seus 70 anos e centenas de alunos hoje pelo país e exterior, o também mais antigo projetista de obras de meio ambiente na mineração brasileira foi contundente: "O que estamos vendo aqui é uma aula da natureza sobre a simplicidade. E isso nos emociona mesmo!"
O velho professor lembrou que, bem mais que a mineração - que é mais visível e preferida pela mídia por ser mais concentrada e impactante -, as estradas e ferrovias brasileiras são hoje o maior e continuado foco de degradação do solo do país: "Como o Estado brasileiro está falido e não há sensibilidade e vontade política para a causa ambiental, cabe aos próprios órgão isolados de governo e à iniciativa privada, no exemplo que estamos assistindo em Minas, se ecologizarem naturalmente e, juntos, reabilitarem a destruição do passado".
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Chorando como crianças
"Meio ambiente é sentimento! É sentir e saber, antes de qualquer realização, que nossas atitudes como profissionais de engenharia podem não apenas significar a construção de uma estrada, um túnel, um talude, uma obra de arte qualquer. Mas, sem a consciência ambiental, podem significar também a erosão de um morro, o secamento de um rio, o fim dos brejos, a morte da vida natural ao redor de nossas obras."
Foi com essas palavras, ainda na memória de uma palestra feita pelo conservacionista Hugo Werneck, também convidado para participar do curso, que o engenheiro Eugênio Botinha, diretor de manutenção do DER-MG, agradeceu, emocionado, a experiência:
"Vocês não sabem como uma solução simples como esta pode ajudar a conter o sangramento de verbas do governo. Hoje, somente em Minas, há 76 pontos de erosão tomando conta e destruindo as nossas rodovias e o meio ambiente à sua volta. Somente no trecho de contorno de Itabira, onde existem 16 erosões e aterros ambientalmente descontrolados, o DER tem previsto um gasto de R$ 2,5 milhões para estabilizá-las nos moldes convencionais."
"Você não viu nada!", observou o engenheiro Murilo Fonte Boa, chefe da divisão de meio ambiente do DER. "Muitos dos nossos colegas chegaram a chorar, quando ouviram, pela primeira vez, o professor Hugo Werneck falar de amor e da co-responsabilidade que o engenheiro deve ter, como cidadão, com a natureza. Alguns choraram mesmo, como crianças", ele completou, lembrando que o anseio e a postura do DER, daqui para frente, será aproximá-los, cada vez mais, de quem entende de ecologia, acabando de vez com o equívoco de ver os ecologistas como "inimigos do desenvolvimento".
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